Evolução da IA Tradicional para a IA Generativa e Agencial
Por: Prof. Dr. Arnaldo de Carvalho Junior (*)
(*) Com auxilio de ferramentas de IA (ChatGPT).
1. EVOLUÇÃO DA IA
A Inteligência Artificial (IA) passou, nos últimos anos, por uma transformação profunda — não apenas em termos de desempenho, mas principalmente de paradigma. Essa evolução pode ser compreendida em três grandes etapas: IA Tradicional, IA Generativa e IA Agêntica (ou Agencial), conforme Figura 1.

IA Tradicional: A IA tradicional é baseada em modelos especializados, treinados para tarefas específicas, como classificação, regressão, detecção de padrões e otimização. Nessa fase, predominam algoritmos de machine learning supervisionado, não supervisionado e métodos simbólicos. Esses sistemas são eficazes, porém reativos, dependentes de dados bem definidos e com pouca ou nenhuma autonomia. Eles executam o que foi programado ou aprendido, mas não “tomam iniciativa”.
IA Generativa: Com o avanço do aprendizado profundo (deep learning – DL) e, em especial, dos modelos de linguagem de grande escala (Large Language Models – LLMs), surge a IA generativa. Essa nova geração de IA não apenas reconhece padrões, mas cria conteúdo: textos, códigos, imagens, áudios e vídeos. A IA generativa amplia drasticamente a capacidade de interação homem-máquina, tornando a IA mais acessível e versátil. Entretanto, apesar de sofisticada, ela ainda é majoritariamente reativa, respondendo a comandos sem autonomia real ou compreensão de objetivos de longo prazo.
IA Agêntica (ou IA Agencial): A etapa mais recente dessa evolução é a IA agêntica. Aqui, a IA deixa de ser apenas um modelo ou um gerador de conteúdo e passa a atuar como um agente autônomo orientado a objetivos. Sistemas agênticos combinam LLMs, geração aumentada por recuperação de conhecimento (Retrieval-Augmented Generation – RAG), memória de longo prazo, planejamento, uso de ferramentas e, frequentemente, arquiteturas multiagente. O resultado são sistemas capazes de perceber, decidir, agir, aprender e colaborar, aproximando-se de uma inteligência operacional contínua.
Em síntese, a trajetória da IA pode ser vista como uma progressão:
- da execução de tarefas específicas (IA Tradicional),
- para a geração de conteúdo inteligente (IA Generativa),
- até a autonomia orientada a objetivos (IA Agêntica).
Essa evolução não substitui os paradigmas anteriores, mas os incorpora e expande, abrindo caminho para aplicações mais robustas, adaptativas e alinhadas a contextos complexos do mundo real.
2. LLM, RAG, AGENTES DE IA
LLM: é um modelo de inteligência artificial treinado com grandes volumes de texto para entender e gerar linguagem natural. Ele aprende padrões estatísticos da língua — como palavras, frases e contextos — e, a partir disso, consegue responder perguntas, escrever textos, resumir informações e até gerar código. Embora pareça “entender” o que diz, o LLM não possui consciência ou intenção própria: ele apenas prediz a próxima palavra mais provável com base no contexto fornecido e no conhecimento aprendido durante o treinamento.
Em síntese, o LLM é:
- Geração de linguagem
- Modelo estatístico treinado
- Sem memória externa
- Reativo
RAG: é uma arquitetura de IA que combina recuperação de informação com geração de texto por modelos de linguagem, permitindo que o agente responda com base em conhecimento externo atualizado e verificável, e não apenas na memória interna do modelo. De forma resumida, o RAG é um mecanismo no qual o modelo primeiro busca informações relevantes em uma base de dados e depois usa esses dados como contexto para gerar a resposta.
Em síntese, o RAG é:
- LLM + Recuperação de Informação
- Base de conhecimento externa
- Atualização em tempo real
- Redução de alucinação
Agentes de IA (Agent AI): é um sistema de software orientado a objetivos que percebe informações do ambiente, toma decisões e executa ações de forma autônoma para alcançar um resultado definido. Diferentemente de um modelo de linguagem isolado, o agente combina raciocínio, memória, uso de ferramentas e, muitas vezes, planejamento, permitindo que ele atue de maneira contínua e adaptativa. Na prática, um agente de IA não apenas responde a comandos, mas avalia contextos, escolhe estratégias e interage com sistemas ou pessoas, aproximando-se de um comportamento inteligente operacional.
Em síntese, o Agente de IA possui:
- Objetivo explícito
- Planejamento e decisão
- Uso de ferramentas
- Memória de curto e longo prazo
- Interação com ambiente
2. Framework para Construção de Agentes de IA
O agente de IA é modelado como um sistema cognitivo artificial orientado a objetivos, capaz de:
- Perceber entradas multimodais
- Raciocinar e planejar
- Agir por meio de ferramentas
- Aprender com memória e feedback
- Interagir com humanos e outros agentes
Um framework sistemático e reutilizável para construção de Agentes de IA, alinhado ao estado da arte em IA Agencial, LLMs, RAG, uso de ferramentas, memória de longo prazo e arquiteturas multiagentes e apresentado nesta seção. O framework está estruturado em camadas e fases, de modo a facilitar tanto a implementação prática quanto a avaliação científica e industrial.
FASE 1 — DEFINIÇÃO DO PROPÓSITO DO AGENTE
1. Definir a tarefa do agente e o objetivo (Goal)
Objetivo: Estabelecer claramente o que o agente deve fazer e como o sucesso será medido.
Elementos-chave:
- Missão do agente (ex.: análise, decisão, recomendação, execução)
- Tipo de tarefa:
- Reativa
- Deliberativa
- Autônoma
- Colaborativa
- Métricas de sucesso – indicadores chave (Key performance Indicators – KPIs):
- Precisão
- Tempo de resposta
- Robustez
- Confiabilidade
Output: Especificação formal do objetivo do agente (Agent Goal Specification)
FASE 2 — MODELAGEM DE ENTRADAS E SAÍDAS
2. Desenhar as entradas e saídas de forma estruturada
Objetivo: Reduzir ambiguidade e aumentar previsibilidade do comportamento do agente.
Entradas (Inputs):
- Texto estruturado (JSON, YAML)
- Dados sensoriais (voz, imagem, sensores IoT)
- Estado interno e histórico
- Contexto recuperado (RAG)
Saídas (Outputs):
- Texto natural (humano)
- Estruturas formais (JSON, XML, SQL)
- Ações executáveis (API calls, comandos)
- Sinais para outros agentes
Boas práticas:
- Schemas explícitos
- Validação sintática e semântica
FASE 3 — ENGENHARIA DE PROMPTS E PROTOCOLO DO AGENTE
3. Solicitar (prompt), ajustar e definir protocolo do agente
Objetivo: Definir o “contrato cognitivo” do agente.
Componentes do Prompt Base:
- Papel do agente (Role)
- Objetivo (Goal)
- Restrições (Constraints)
- Estilo de resposta
- Critérios de parada
Protocolo do Agente:
- Turn-taking
- Regras de decisão
- Quando usar ferramentas
- Quando pedir ajuda humana
Output: Agent Prompt Blueprint + Interaction Protocol
FASE 4 — RACIOCÍNIO E USO DE FERRAMENTAS
4. Adicionar raciocínio e uso de ferramentas
Objetivo: Expandir capacidades além do texto.
Tipos de Raciocínio:
- Cadeia de pensamento (interno)
- Planejamento (Plan → Act → Observe)
- Verificação e autoavaliação
Ferramentas:
- APIs externas
- Bancos de dados
- Motores de busca
- Códigos e scripts
- Simuladores
Padrões comuns:
- ReAct
- Toolformer
- Planner–Executor
FASE 5 — ARQUITETURA MULTIAGENTE (SE NECESSÁRIO)
5. Estrutura lógica multiagente
Objetivo: Resolver problemas complexos por especialização e colaboração.
Tipos de agentes:
- Orquestrador (Coordinator)
- Especialistas (Experts)
- Crítico/Auditor
- Executor
Topologias:
- Hierárquica
- Ponto a Ponto (Peer-to-peer)
- Blackboard
- Enxame (Swarm)
Comunicação:
- Protocolos estruturados
- Mensagens assinadas
- Memória compartilhada ou privada
FASE 6 — MEMÓRIA E CONTEXTO DE LONGO PRAZO
6. Adicionar memória e contexto de longo prazo
Objetivo: Tornar o agente adaptativo e cumulativo.
Tipos de Memória:
- Curto prazo (janela de contexto)
- Longo prazo:
- Vetorial (embeddings)
- Simbólica (regras, fatos)
- Episódica (histórico de interações)
Técnicas:
- RAG
- Indexação semântica
- Esquecimento controlado
FASE 7 — MODALIDADES AVANÇADAS (OPCIONAL)
7. Adicionar recursos de voz ou visão
Objetivo: Expandir canais de percepção e interação.
Voz:
- Fala para Texto – ASR (Speech-to-Text)
- Texto para Fala (Text-to-Speech – TTS)
- Diálogo contínuo
Visão:
- Reconhecimento Ótico de Caracteres (Optical Character Recognition – OCR)
- Análise de imagens e vídeo
- Reconhecimento de padrões visuais
Integração: Multimodal → Representação unificada → Raciocínio
FASE 8 — FORMATO DE ENTREGA DOS RESULTADOS
8. Entregar o resultado em formato humano ou de máquina
Objetivo: Garantir interoperabilidade e usabilidade.
Formatos Humanos:
- Texto explicativo
- Relatórios
- Dashboards
Formatos de Máquina:
- JSON
- Protobuf
- Eventos
- Ações automatizadas
FASE 9 — INTERFACE COM O USUÁRIO
9. Criar uma interface de usuário
Objetivo: Facilitar controle, supervisão e confiança.
Interfaces possíveis:
- Chat
- Web app
- Mobile
- Voz
- APIs
Recursos importantes:
- Transparência das decisões
- Logs e histórico
- Feedback humano (HITL)
FASE 10 — AVALIAÇÃO, MONITORAMENTO E GOVERNANÇA
10. Avaliar e monitorar o desempenho do agente
Objetivo: Garantir qualidade, segurança e melhoria contínua.
Métricas:
- Efetividade da tarefa
- Alucinação
- Uso de ferramentas
- Custo computacional
Monitoramento:
- Logs estruturados
- Avaliação automática
- Feedback humano
- Auditoria ética e regulatória
A Figura 2 apresenta um pipeline consolidado

A Figura 3 apresenta o Framework de forma resumida

3. IA AGENCIAL – A NOVA FRONTEIRA
IA Agentica ou Agencial (AI Agentic): é o estágio mais recente de IA baseado em sistemas compostos por um ou mais agentes de IA autônomos, capazes de planejar, decidir, agir e colaborar para atingir objetivos complexos. Diferentemente de soluções reativas ou de um agente isolado, a IA agêntica integra modelos de linguagem, memória de longo prazo, uso de ferramentas, coordenação multiagente e mecanismos de governança, permitindo adaptação contínua ao ambiente. Esse paradigma aproxima a IA de sistemas organizacionais inteligentes, nos quais diferentes agentes especializados cooperam, supervisionam e evoluem de forma estruturada.
Em síntese, a IA Agencial (Agêntica) contempla:
- Múltiplos agentes especializados
- Coordenação e orquestração
- Comunicação interagente
- Memória coletiva
- Governança e monitoramento
O quadro a seguir apresenta um comparativo entre LLM, RAG, Agentes de IA e IA Agencial

Visão Evolutiva (Linha de Maturidade)
LLM
↓
RAG
↓
Agente de IA
↓
IA Agencial (Agêntica)
- LLM → linguagem
- RAG → linguagem + conhecimento
- Agente de IA → conhecimento + ação
- IA Agencial → ação + coordenação + adaptação sistêmica
Síntese conceitual
- LLM é o cérebro linguístico
- RAG é a memória factual externa
- Agente de IA é o ator autônomo
- IA Agencial é o sistema cognitivo coletivo
IA Agencial não é apenas um agente.
Ela representa uma mudança de paradigma, aproximando a IA de:
- sistemas complexos,
- organizações artificiais,
- inteligência distribuída,
- e arquiteturas cognitivas inspiradas em sociedades humanas.
4. EXEMPLOS DE APLICAÇÃO DE IA AGENCIAL
1. Exemplos Acadêmicos e Experimentais
1.1 Generative Agents (Stanford / Google)
- Descrição: Agentes baseados em LLMs com memória episódica, planejamento e reflexão.
- Capacidades agênticas:
- Memória de longo prazo
- Planejamento diário
- Interações sociais entre agentes
- Importância: Demonstra agentes com comportamento contínuo e coerente ao longo do tempo.
1.2 Voyager (Agente Autônomo em Minecraft)
- Descrição: Agente que explora um ambiente aberto sem objetivos fixos.
- Capacidades agênticas:
- Planejamento
- Aprendizado contínuo
- Uso de ferramentas
- Importância: Exemplo de autonomia de longo prazo e aprendizado incremental.
1.3 AutoGPT / BabyAGI (Experimentos iniciais)
- Descrição: Agentes capazes de decompor objetivos em subtarefas.
- Capacidades agênticas:
- Planejamento iterativo
- Execução automática
- Avaliação de resultados
- Limitação: Pouca governança e controle.
2. Exemplos Corporativos e Industriais
2.1 Agentes Corporativos Autônomos
- Exemplo: Agente que gerencia processos administrativos.
- Funções:
- Ler e-mails
- Atualizar sistemas
- Gerar relatórios
- Características agênticas:
- Objetivos claros
- Uso de múltiplas ferramentas
- Tomada de decisão condicionada
2.2 Agentes DevOps / Engenharia de Software
- Exemplo: Agentes que:
- Analisam código
- Executam testes
- Criam pull requests
- Capacidades:
- Planejamento técnico
- Execução automática
- Cooperação entre agentes (ex.: revisor + executor)
3. Sistemas Multiagente (IA Agêntica Plena)
3.1 Equipe de Agentes Especializados
- Exemplo típico:
- Agente Planejador
- Agente Especialista
- Agente Crítico/Auditor
- Agente Executor
- Aplicação: Análise de projetos complexos, pesquisa científica, consultoria automatizada.
3.2 Agentes em Cadeias de Suprimentos
- Descrição: Cada agente representa uma função:
- Estoque
- Logística
- Demanda
- Resultado: Decisões distribuídas e adaptativas em tempo real.
4. Exemplos em IoT, Robótica e Sistemas Ciberfísicos
4.1 Agentes em Smart Cities
- Agentes para:
- Tráfego
- Energia
- Segurança
- Características:
- Percepção contínua
- Decisão local
- Coordenação global
4.2 Robôs Autônomos Colaborativos
- Exemplo: Frotas de drones ou robôs industriais.
- Capacidades:
- Comunicação interagente
- Planejamento coletivo
- Reconfiguração dinâmica
5. Exemplos em Educação e Ciência
5.1 Tutores Inteligentes Agênticos
- Descrição: Agentes que acompanham o aluno ao longo do tempo.
- Capacidades:
- Memória do progresso
- Adaptação pedagógica
- Planejamento de atividades
5.2 Agentes Científicos
- Exemplo: Agentes que:
- Revisam literatura
- Geram hipóteses
- Analisam dados experimentais
- Uso típico: Apoio à pesquisa científica.
6. Síntese: O que torna esses exemplos “IA Agêntica”
Um sistema é considerado IA agêntica quando apresenta, de forma integrada:
- Autonomia orientada a objetivos
- Planejamento e tomada de decisão
- Uso ativo de ferramentas
- Memória persistente
- Coordenação entre agentes (quando aplicável)
- Interação contínua com o ambiente
CONCLUSÃO
A evolução da IA não substitui os paradigmas anteriores, mas os incorpora e expande, abrindo caminho para aplicações mais robustas, adaptativas e alinhadas a contextos complexos do mundo real. Porém, a maioria das pessoas ainda usa os termos LLM, RAG, Agente de IA e IA Agentica de forma intercambiável, mas eles não são a mesma coisa. Se o pesquisador estiver construindo sistemas de IA generativa (Generative AI – GenAI) deve compreender a diferença entre LLM, RAG, Agente de IA e IA Agentica, suas limitações e aplicações potenciais. A sociedade está migrando de modelos de resposta única para arquiteturas de IA autônomas, baseadas em raciocínio e conscientes de ferramentas. A IA Agentica não é apenas uma IA que responde, mas uma IA que decide, age e coordena.
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